quinta-feira, 5 de março de 2009

high music

invadi o fundo do meu coração com um exército bravio e astuto. pulei de verdade em verdade, de mentira em mentira. desci ladeiras escuras e pulsei o chão, as paredes e o teto, até perceber que as piores cicatrizes são feitas pelas minhas próprias mãos. pelos meus pulsos firmes e arqueados quando esnobes ou arrogantes, quando doces ou delicados.
tu não entenderias ao certo das dores e das alegrias. aliás, a passagem das dores ou a renúncia que fazes constantemente não é percebida. por mim sim, amor. fecha os teus ouvidos. isso, isso!
agora vou contar: abri todas as portas de mim. tirei os venenos, as baratas. limpei as arestas, tirei as teias. é tão fácil provocar dor.
no entanto, me provoco apenas alegrias. não canto só porque desafino, não danço só porque me doem as pernas. desamar é meu verbo. e desamado é que vou. logo agora, darling, que abri todas as portas, troquei as toalhas, os copos e as facas. se soubesses, ao menos, que pus flores sobre a mesa.
estou farto do seu silêncio. estou farto das tuas palavras. me cansei das tuas bocas quando beijas, dos teus olhos quando sorriem, estou exausto, sweetest, de ti e de tudo que te compreenda. estou farto até da injustiça que cometo contigo.
adoro te ver sem entender. sei que pensas em três ou quatro músicas enquanto te falo da rivalidade do meu coração. a imagem acústica da tua música é desentoada como tu.
não te quero mais. tua pele me repele.
bem mais abaixo, eu sei amar. sei amar a quem me ama. sei amar a quem me toca fundo a alma e faz minha casa colorida. não tu, claro. sei amar a voz, essa voz que ainda não sei. desvairado, louco. te amo assim. te amo quando sentas, já disse. avassalador. dá a tua mão. olha a estrada de sol!
vamos caminhar juntos num imperativo de amor?
me deixa te mostrar que a paixão destes anos é tua.
canta teu retorno, canta!
já não sei rimar, nem fazer doer. minha dor é a falta da dor.
é essa imcompreensão, esse calor e essa noite infinita. se eu rondar a noite não te acho. se rondar as praias, os bares, as baladas ou as saunas, também não. você não existe, amor.
mas eu te amo esperançoso e delicado. deixo o quarto aberto e limpo pra ti. coloco duas toalhas coloridas e um copo de vinho doce. escrevo uma carta de amor ou declamo uma poesia arábica, grega ou catalã. te amo cosmopolita. aqui and everywhere.
desculpa o devaneio, garoto. tira as mãos dos ouvidos e escuta com calma: um pouco é mentira, outro pouco verdade. mas acredita no amor. tá vendo essa lágrima? é da falta de amor. e do desencontro ou do encontro errado. eu curo tudo. cretino! ouve a mim. presta atenção!
tô um pouco sozinho aqui, mas já resolvo. eu não tenho medo da solidão. ela me aquece tanto.
agora sai daqui e deixa deitar sozinho. cansei do teu corpo. sim, do teu, agora.

[deitado de costas, nu e braços abertos. cigarro numa mão, garrafa de conhaque na outra. foi assim que ele - com lágrimas nos cantos dos olhos - acreditou no amor e que os exércitos bravios e astutos se retiraram, até ele morrer]

Um comentário:

Anônimo disse...

docemente triste, suavemente intenso :)