...via em um canto pontiagudo uma televisão antiga, talvez sem cor, que insistia em mostrar apenas as imagens que a agradava: um furacão que vinha de dentro do oceano e que balançava as arvorezinhas, agora sem folhas, na beira da praia.
num outro lado da sala, depois de quatro ou cinco mesas, dois quadros tortuosos. me pareciam um pouco turvos, talvez pela fumaça toda e tanta cinza de cigarros mal apagados. no entando, aquele ar bucólico e gentil das pinturas era só para desfazer a anuência para com as pessoas: copos quebrando, garrafas pela metade, goles desonestos, risadas descontroladas e pessoas incestas, bêbadas.
e eu aqui, nesta mesma mesa de duas cadeira e dois copos. bebia amargamente. fumava cigarros amassados e ajeitava a gola da minha camisa. tu dizias que deveria refutar as verdes, um tanto fora da moda. nem tive tempo de mostrar que a moda passa e que não sobram, sequer, estigmas. porém, com esta, tu dizias que eu parecia um menino selvagem, pronto pra me entregar ao teu amor, desvendar teus segredos mais íntimos, decodificar teu código morse indiano.
às vezes apanhava teu copo e simulava enchê-lo do meu drink. se enchesse, estaria dividindo contigo a minha vida mais bandida e transbordada daquilo que mais me valia em silêncio: o nosso amor. não enchia. e acabava devolvendo teu copo ao lugar oposto ao meu. acontece que gelo derretido é só água. e ele esvairia se o deixasse esperando com tanta aflição e calor das pessoas que se queriam e se abraçavam.
eu veria teu rosto impetuoso muito longe, atravessando as devastas e devassas multidões, desbravando os cigarros mal fumados, bebidas mal bebidas, pulando de cadeira em cadeira. veria teus olhos pequenos mirando os quadros pastoris daquela parede de canto, naquele pub español desajeitado.
até que tu me chegas e senta. gosto dos teus cabelos morenos, do quente da tua pele, do teu ar virgem europeu. quando tu olhas nos meus olhos, desvia o olhar para o copo e sorri com vergonha. só tornando a me encarar depois que o riso cesse e os trejeitos apaixonados se confundam com qualquer seriedade de amar.
"que no haria yo por ti?"
ponho a mão sobre a mesa. tu pões a tua sobre a minha e me olhas: soy tuyo.
eu esqueço as palavras, a arbitrariedade do signo e a linearidade do que isso signifique. minhas pernas tremem e meu corpo relaxa inteiramente. meus poros dilatam e se contraem incansavelmente. eu vejo todas as mudanças no meu corpo no intervalo das tuas duas palavras.
soy tuyo e teu sotaque latino. soy tuyo e tua capa vermelha.
eu sempre fui teu, bombón. não porque semicerras os lábios pra me provocar, tampouco porque fechas os olhos, depois escondes-os com as mãos pra rir.
sou todo teu, mi bien, porque tua poesia dilacera o meu coração. teu jeito sereno me toma com uma música suave que leva, leva, leva pra um lugar que os únicas chamas que queimam são as de dragões de amor.
Enrola tuas mãos e tua vida nas minhas que assumo os danos de flores, porque quiero fundirme yo en ti.
.três de outubro de dois mil e, siM, oito. [ 2h14 -noite insolente]
saco, essas noites longas e erradias não me temem. pelo menos, aproveito este intervalinho de sonos para escrever. odeio falhar os dias. enfim, as noites não temem mesmo. muito pelo contrário: tomam conta tão fortemente que me rendo às armas porque meus escudos são de lata barata. os dias têm sido cansativos e compridos por aqui. hoje levantei às 8h50. tomei um café bem forte e fumei um cigarro, mesmo detestando o gosto do alcatrão pela manhã. trabalhei a manhã e a tarde integralmente. recebi, à tarde, a visita de dois médicos que se queixavam do prejuízo que tiveram semana passada por conta de uma cirurgia de oito horas que tiveram de fazer, gratuitamente. É mesmo uma falta muito grande de dinheiro que os move. Deixar de ganhar dois mil pode ser tão perigoso quanto a morte de uma pessoa.
Depois fui pra aula e isso sim foi bem bonito. Tratamos, na literatura, da construção da identidade brasileira. Essas coisas refletem em boa parte na ideologia do hoje.
Tenho cansado de esperar que o dia chegue. Parece que a procura é indigente. Falta do meu amor aqui. Te quero tanto e hei de te dizer algum dia. Provavelmente no segundo após te conhecer, mi bien. Traz a vida pra perto da minha. Preenche esse meu vazio desacretidado e cuida das feridas do meu coração. Sonhei com nosso primeiro encontro hoje.
Enfim, vou dormir agora que amanhã a função é a mesma. Mas antes, preciso falar do meu sonho..
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Um comentário:
a primeira parte do texto tem trechos de um lirismo "de doer", de tão lindo...
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